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id da página: 9849 Tanquerey Discernimento

Tanquerey Discernimento

TANQUEREY — COMPÊNDIO DE TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA


Apêndice sobre o discernimento dos espíritos

951. Dos diversos espíritos que atuam em nós. No decorrer das páginas precedentes, falamos várias vezes dos movimentos diversos que nos impelem ao bem ou ao mal. Importa, evidentemente, reconhecer qual é a origem desses movimentos.

Ora, teoricamente, podem provir de cinco princípios diferentes:

a) de nós mesmos, do espírito que nos leva para o bem, da carne que nos impele para O mal;

b) do mundo, enquanto atua, pelos sentidos, sobre as nossas faculdades internas, para as arrastar para o mal (n. 212);

c) dos anjos bons, que suscitam em nós bons pensamentos:

d) dos demônios que, ao contrário, atuam sobre os nossos sentidos externos ou internos, para nos impelirem ao mal;

e) de Deus, o único que pode penetrar no mais íntimo da alma e nunca nos leva senão para o bem.

952. Na prática, porém, basta saber se esses movimentos vêm do bom ou do mau princípio; do bom princípio, isto é, de Deus, dos anjos bons ou do espírito auxiliado pela graça; do mau princípio, a saber, do demônio, do mundo ou da carne. As regras, que nos permitem distinguir um do outro, chamam-se regras sobre o discernimento dos espíritos. Já S. Paulo havia lançado o fundamento dessas regras, ao distinguir no homem a carne e o espírito, e, fora dele, o Espírito de Deus, que nos leva para o bem, e os anjos réprobos que nos solicitam ao mal. Desde então, os autores espirituais, como Cassiano, S. Bernardo, Santo Tomás, o autor da Imitação (L. III, c. 54-55), S. Inácio, traçaram regras para discernir os movimentos contrários da natureza e da graça.

953. Regras de S. Inácio, que convém particularmente aos principiantes:

Referem-se as duas primeiras à maneira diversa de proceder com os pecadores e para com as pessoas fervorosas,

1. Primeira regra. Aos pecadores, que não põem freio algum às suas paixões, propõe o demônio prazeres aparentes e voluptuosidades, para os reter e mergulhar cada vez mais profundamente no vício; o bom espírito, pelo contrário, excita-lhes na consciência perturbação e remorso, para os fazer sair de estado tão lastimoso.

Segunda regra. Quando se trata de pessoas sinceramente convertidas, suscita-lhes o demônio tristeza e tormentos de consciência, obstáculos de toda a sorte, para as desalentar e impedir os progressos. O bom espírito, ao contrário, dá-lhes coragem, forças, santas inspirações, para os fazer avançar na virtude. Julgar-se-á, pois, da árvore pelos seus frutos; tudo o que põe travas ao progresso, vem do demônio; tudo o que o favorece, vem de Deus.

954. 2. A terceira regra refere-se às consolações espirituais. Vêm do bom espírito: 1) quando produzem movimentos internos de fervor: primeiro, uma centelha, depois, uma chama, por fim, uma fornalha ardente de amor divino; 2) quando fazem derramar lágrimas, que são verdadeiramente a expressão da compunção interior ou do amor de N. Senhor Jesus Cristo; 3) quando aumentam a , a esperança, a caridade, ou pacificam e tranqüilizam a alma.

955. 3. As regras seguintes (4a.-9a.) dizem respeito às desconsolações espirituais: 1) as desconsolações são trevas no espírito, ou inclinações da vontade às coisas baixas e terrenas, que tornam a alma triste, tíbia e preguiçosa; 2) não se deve, então, mudar nada nas resoluções tomadas antes, como sugere o espírito maligno, senão perseverar firme nas decisões anteriores; 3) deve até aproveitar-se delas a alma, para se afervorar mais, dar mais tempo à oração, ao exame de consciência, e fazer mais penitência; 4) ter confiança na socorro divino que, posto que não sentido, realmente nos é outorgado, para ajudar as nossas faculdades naturais e praticar o bem; 5) ter paciência e esperar que a consolação há de voltar, refletir que a desconsolação pode ser um castigo da nossa tibieza; uma prova, com que Deus nos quer fazer tocar com o dedo o que podemos, quando somos privados de consolações; uma lição, pela qual pretende o Senhor mostrar-nos que somos incapazes de conseguir por nós mesmos consolações e curar-nos assim do nosso orgulho.

956. 4. A regra undécima volta a falar das consolações, para nos advertir que é mister fazermos então provisões de coragem, para nos havermos bem no tempo da desconsolação; e para nos avisar de que nos devemos humilhar, ao vermos o pouco que podemos, quando nos encontramos privados da consolação sensível; e que pelo contrário, podemos muito no tempo da desconsolação, se nos apoiamos em Deus.

957. 5. As três últimas regras (12a.-14a.) expõem para os descobrirem, os ardis com que o demônio nos procura seduzir: a) procede como uma mulher de mau gênio, que é fraca quando se lhe resiste, mas furiosa e cruel, quando se lhe mostra medo; ê, pois, necessário resistir vigorosamente ao demônio; b) porta-se como um sedutor que pede segredo à pessoa que solicita ao mal; por conseguinte, o melhor meio de o vencer é descobrir tudo ao diretor espiritual; C) imita um capitão, que, para render uma praça, a assalta pelo sitio mais fraco; importa, pois, vigiar este ponto fraco no exame de consciência.